sábado, 20 de outubro de 2007

Palestra polêmica de Diogo Mainardi no 20º Set Universitário da PUCRS

Guilherme Bartz


Diogo Mainardi, célebre colunista da Revista Veja, realizou no dia 17 de setembro de 2007 a palestra de abertura do 20º Set Universitário ocorrido na PUCRS. Num clima de muita ironia e em meio a manifestações acintosas de uma parte da platéia, o polêmico escritor fez declarações retumbantes sobre o momento atual do Brasil.

Mainardi iniciou seu discurso com a seguinte fala: “Político é tudo ladrão”, frase que, apesar de cair na banalidade da generalização, parece possuir um fundo grande de verdade, já que nos dias de hoje a política nacional anda muito marcada pela corrupção. Seu intuito nesta afirmação foi o de alertar os futuros jornalistas para que estes possuam o máximo de “desconfiômetro” diante dos políticos brasileiros, que por mais inocentes que possam às vezes parecer, são sempre passíveis de corrupção.

O colunista revelou na palestra que já sofreu em tor
no de trezentos processos, promovidos pelas mais variadas pessoas e empresas. Disse que “falar abertamente” é extremamente perigoso, principalmente quando se faz uso da piada e da ironia, pois este tipo de comportamento pode trazer conseqüências desagradáveis. Atualmente, admitiu ter um pouco mais de auto-censura, já que pôde adquirir bastante experiência nos problemas com a justiça ao longo dos últimos anos. As centenas de processos atrapalharam muito a sua vida, fazendo-o perder muito tempo em função dos deslocamentos para São Paulo para responder à justiça.

Diogo Mainardi não possui curso de graduação comp
leto, e em certo momento acrescentou, talvez para se justificar: “Faculdade não serve para nada”. Pareceu um pouco imprópria esta sua afirmação naquele momento e naquele lugar, pois ele foi convidado (e aceitou) para fazer uma palestra dentro de uma Universidade que, diga-se de passagem, o está pagando para esta função. Indiretamente, talvez ele tenha dito que um bando de estudantes estava ali para assisti-lo por nada. Isso nos faz pensar que a palestra não possui função de existir: uma palestra promovida por um organismo que não serve para nada provavelmente não tem importância na vida de ninguém.
Mas, à parte as suas generalizações e à sua incapacidade de se aprofundar nos assuntos, Diogo Mainardi fez afirmações que dificilmente podem ser contestadas: “O
PT rouba e é perseguido por isso”, “A Rede Globo foi excessivamente cautelosa na cobertura do Mensalão”, “Desconfiem de todos os políticos”, “A Rede Globo está contaminada pela chapa-branca”, “O Mensalão era ‘diário’”, entre outras.

Crítico ferrenho do Brasil, Mainardi ainda falou em vários momentos que nosso país é extremamente pobre e atrasado e que não possui solução, o que despertou a ira de certos espectadores. Adentrando no campo literário, achincalhou Mário de Andrade e Carlos Drummond de Andrade, acusando-os de serem insensíveis à época em que viviam. Com o argumento de que estes escritores não abordavam em suas obras os problemas de seu tempo (como a Segunda Guerra Mundial), Mainardi quis rebaixar a importância desses grandes artistas brasileiros. Cabe uma pergunta: o artista não tem a liberdade de optar por qual caminho a sua arte deve seguir? Da mesma forma, quando acusou Luís Fernando Veríssimo de escrever “crônicas vazias”, não devemos nos perguntar: em que sentido elas são vazias? Podem ser vazias num sentido político, que foi o que ele deu a entender, mas com certeza não o são em outros aspectos da literatura e sob outras formas de abordagem crítica.

As manifestações contra Diogo Mainardi, promovidas por uma minoria de pessoas desorganizadas nos seus atos, só serviu para reforçar a sua aura polêmica. Diogo Mainardi não deve ser levado a sério em tudo que diz. O seu espírito corajoso e desbravador precisa ser valorizado, mas, ao contrário do que ele afirma, atirar pra todo lado e criticar tudo e todos é fácil sim (quando não s
e possui nem a auto-crítica e nem a ponderação para isso). “O PT é um partido de sindicalistas corruptos” foi mais uma das suas generalizações, e não deve ser encarada como uma verdade absoluta. Com certeza há muitos políticos corruptos pelo Brasil, estamos cheios deles, mas não é possível afirmar que 100% deles o sejam.

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